Continuo encanada com os tênues limites entre ficção e realidade. No caso da ficção científica, o prefácio do livro do post anterior e esse link abaixo, mostram como a noção de ficção interferindo na realidade e vice-versa permeia nossa existência. E vc caro (a) admirador (ra) secreto(a), o que acha?
Podemos dizer que o escritor estadunidense Philip K Dick está duplamente envolvido com Minority Report - o filme. Primeiro porque ele deriva de um de seus contos publicado em 1956 e, segundo, porque a fotografia e a constante chuva que se ajusta à melancolia do personagem John Anderton lembram, e muito, o ambiente de Blade Runner - o caçador de androides, filme produzido a partir do livro Do Androids dream of electric sheep? também de Dick e filmado por Ridley Scott.
Assista ao vídeo e verifique você mesmo! Além disso, descubra que aquela famosa música de formaturas e casamentos é do Vangelis e está em Blade Runner. Se quiser, dê uma vasculhada nas músicas desse cara e você reconhecerá muitas outras, mesmo tendo menos de 16 anos!!!
Outro destaque é a referência ao clássico Laranja Mecânica, do diretor Stanley Kubrick. Só de ver a foto abaixo, você certamente lembrará de qual parte de Minority estou falando...
Mas o filme de Spielberg não é uma mera adaptação do conto de Dick e referência a clássicos do cinema, tem muito do diretor. A sequência de ação que dura praticamente 30min é impressionante e o final, eu diria, tosco. Nem tudo é perfeito, não é mesmo?
O questionamento de a que estamos dispostos a aceitar, como sociedade, para nos livrarmos da violência é bem interessante. Seríamos capazes de perder nossa privacidade e mandar pra cadeia seres que não chegaram a cometer crimes? De fato, ainda precisamos discutir esse assunto.
A sede de poder, personificada pelo personagem Lamar, nos remete aos nossos governantes. Seriam eles, tais quais esse senhor de fisionomia dócil?
Li, gostei (afinal, o garoto captou a ideologia de cada veículo) e decidi republicar, para algumas e muitas sobre cinema, procure: www.travessaliteraria.blogspot.com, por Breno Rodrigues de Paula.
Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009
Chapeuzinho Vermelho na imprensa
Chapeuzinho Vermelho na imprensa
JORNAL NACIONAL (William Bonner): 'Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem...'. (Fátima Bernardes): '... mas a atuação de um caçador evitou uma tragédia'.
PROGRAMA DA HEBE (Hebe Camargo): '... que gracinha gente. Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?'
BRASIL URGENTE (Datena): '... onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as autoridades? ! A menina ia para a casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte público! E foi devorada viva... Um lobo, um lobo safado. Põe na tela!! Porque eu falo mesmo,não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não.'
REVISTA VEJA Lula sabia das intenções do lobo.
REVISTA CLÁUDIA Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho.
REVISTA NOVA Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama.
FOLHA DE S. PAULO Legenda da foto: 'Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador'. Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.
O ESTADO DE S. PAULO Lobo que devorou Chapeuzinho seria filiado ao PT.
O GLOBO Petrobrás apóia ONG do lenhador ligado ao PT que matou um lobo pra salvar menor de idade carente.
ZERO HORA Avó de Chapeuzinho nasceu no RS.
AGORA Sangue e tragédia na casa da vovó
REVISTA CARAS (Ensaio fotográfico com Chapeuzinho na semana seguinte) Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: 'Até ser devorada,eu não dava valor para muitas coisas da vida. Hoje sou outra pessoa'
PLAYBOY (Ensaio fotográfico no mês seguinte) Veja o que só o lobo viu.
REVISTA ISTO É Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.
G MAGAZINE (Ensaio fotográfico com lenhador) Lenhador mostra o machado
SUPER INTERESSANTE Lobo mau! mito ou verdade ?
DISCOVERY CHANNEL Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida v iva e sobreviver
Antero de Quental foi um prodígio. Aos 23 anos já duelara com um acadêmico e organizava as Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense. Esse português há que ser um exemplo à nossa juventude, que vive numa insistente pasmaceira ideológica. Esse homem revelou, em seus poemas, o quanto a sensibilidade e o modo como a vida se configura diante de nós podem nos transformar. Avante!
Aqui vão dois de seus poemas:
HÁ DOIS TEMPLOS NO ESPAÇO
HÁ DOIS TEMPLOS NO ESPAÇO – UM DELES MAIS PEQUENO;
Isso é coisa de fã mesmo, eu sei. Mas não é todo dia que tiro foto com alguém de voz tão doce, sensibilidade ímpar e, acima de tudo, paciência. Não sei se trata-se do fenômeno músicas grátis na rede, mas que Fernanda ficou mais de uma hora autografando cds, ficou. Uma gentileza em pessoa. Show excelente, recomendo!!! Viva a bossa nova!
Ps. Até Duran Duran rolou, ela estava inspirada! Eu, anos 80, gostei!
Essa semana estava ouvindo esse som e lembrei-me de um evento ocorrido quando tinha 16 anos e que mudou minha maneira de sentir a música. Conto: meu professor de literatura presenteou-me com uma fita cassete (é, naquele tempo era assim) recheada de músicas clássicas. Ouvi, pasmem!, pela primeira vez, Beethoven, Mozart e Tchaikovsky. Aos ouvir tais canções, minha cabecinha pôs-se a funcionar e milhares de figuras se formaram em minha mente. Era a imaginação criativa e eu nem sabia. Tomei consciência de que é isso o que acontece quando ouvimos boa música, muuuiiitttoo depois. Hoje, ao ouvir o solo de guitarra de Hysteria, tenho a mesma sensação e sei que muito de minha criatividade vem do delicioso exercício de ouvir os mais variados gêneros musicais. E você, o que ouve para exercitar sua criatividade?
O Caminho do poço das lágrimas é minha mais recente leitura. Conhecia a fama de André Vianco, mas nunca o havia lido. Sua escrita é fluente, um tanto poética, porém é na temática que o rapaz é singular. Explico: na literatura anglo-saxônica é comum fabular sobre mundos sombrios, cheios de monstros esdrúxulos que nos fazem perguntar se estamos no plano da vida ou no além. Para um latino, isso não é comum e Vianco viaja exatamente nesse fio tênue. Esse livro, em especial, tem algo do Nonsense, do mistério de Poe e muito do inconsciente de Freud, mas tem também uma delicadeza no trato com a palavra que faz com que, após a leitura, tenhamos a impressão de termos vagado por um caminho escuro, sombrio, gelado, mas para todos imposto. A ilustração de Lese Pierre pulula entre o mórbido e o lúdico, acompanhando-nos nessa viagem ao túnel de luz!
Um tempo atrás encanei em comprar revistas de Design. Numa banca qualquer, encontrei a Zupi, uma publicação brasileira que dá a valiosa chance para os caras que desenham, colam e fazem outras invencionices brilhantes ganharem visão. A arte de Stephan logo me encantou. Ele deu uma entrevista à revista e falava de sua influência, a arte medieval. Sua mistura de imagens barrocas com técnicas do grafite me surpreendeu. É um cara com certa bagagem cultural que soube, em tempos propícios, reinventar uma arte consagrada. A ideia de "pintar uma cidade" como ele relata no vídeo acima, mostra que os sonhos de um artista não têm mesmo limites (embora isso seja um chavão, é preciso sempre dizê-lo). Hoje, Lencóis, na Bahia, pode dizer que sua periferia será visitada. Além de colorir a vida pacada e maçante desses excluídos, Stephan mostra a eles o que é ser artista e isso acontece num círculo de pessoas que sequer imaginou tal feito.
Sexta-feira. Madrugada. Documentário num canal da TV "fechada". A história da geração de cineastas de San Francisco.
O documentário relatava a luta entre o grupo da cidade e o império de Hollywood, o "fracasso" de George Lucas com THX 1138, sua união com Martin Scorsese, a amizade entre estes e Spielberg, a nova geração formada por Chris Columbus, a resistência de Saul Zaentz entre outras histórias. Animadíssima, corri até uma locadora, no dia seguinte, à procura de um exemplar de algum desses, hoje, famosos diretores. Deti-me a alguns passos de Who´s that knocking at my door, filme em pb de Martin Scorsese.(Faz-se necessário dizer que o estabelecimento de locação de filmes de uma cidade pequena do interior do estado de SP não tinha, PASMEM!!, cópias de O poderoso chefão). Pois bem, comecei a ver o filme e rapidamente encantei-me pela cara de invocado de Harvey Keitel, que vive J.R., um cara desempregado que gosta de beber e dar umas porradas em e com seus amigos. No entanto, a cena inicial, uma senhora partilhando e dando pão a algumas crianças chamou-me atenção. De repente, há um corte na narrativa e J.R. está de papo com uma garota, eles falam sobre filmes western, John Wayne e etc. Pensei: ele está sonhando? Não?. Não estava, era Scorsese experimentando duas narrativas paralelas já em sua primeira película (vim a saber depois que fora feita com um orçamento ínfimo, patrocinada por um de seus professores da academia de Nova Iorque).
Os dois desenvolvem um namoro e J.R. continua a beber bastante e a ter encontros sexuais com várias mulheres (nos quais temos ao fundo rock´n roll!!!). Logo após, o filme ganha sentido: ao saírem do cinema, J.R. e sua garota comentam a respeito da mocinha de um filme de faroeste. Ela acha a garota legal, ele diz que a personagem é uma assanhada. Está instaurado o conflito e explicada a cena inicial eminentemente cristã. O mocinho de Scorsese é uma espécie de vilão que duvida da própria namorada ao ouvir o relato de que fora estuprada. O jovem não consegue transcender a si mesmo, não está ajustado aos novos tempos, fora educado segundo uma forte moral religiosa e acredita que as mulheres são como objetos submissos a serem manipulados. No entando, sua namorada é um exemplo da nova mulher que encontrava a liberdade nos anos 60 e 70. O belo filme de estréia de Martim Scorsese é um excelente exercício para se pensar um período de transformações em que o maniqueísmo dos filmes western perdeu lugar para a espetacularização e quebra dos grandes relatos que vivemos na atualidade.
Dias atrás li algo parecido com "Pulp Fiction é aquele tipo de filme que a gente não entende nada, vai assistindo e no final é que cai a ficha". Li e devo discordar. Para um bom observador é fácil perceber que o que ocorre são três narrativas interdependentes, ora, se você presta atenção aos nomes das personagens e não apenas recebe imagens, rapidinho identifica a ligação entre as histórias, não é?
Pois então, esse filme tem muita coisa interessante a sua volta. Por exemplo: a palavra Pulp do título é uma referência a uma revista de pequenas histórias que Tarantino costumava ler na sua juventude. Assim, fica interessante pensar que ao escrever o roteiro, Quentin, não só pensou no formato que o inspirou, como também na temática (violência) que era bastante recorrente nas tais pulps. Saber que J. Travolta estava meio over e que deu um up em sua carreira através do filme também me faz ter um carinho especial pela produção. Merecem destaque as invencionices do diretor, por exemplo, as marcas de cigarro e hamburger que aparecem nas filmagens foram criadas pelo próprio Tarantino e aparecem em outros de seus filmes.Além de ser irônica e engraçada a passagem bíblica meio inventada meio copiada que o personagem de Jackson fala em uma das cenas reveladoras da trama integral.
Sem contar as cenas inesquecíveis: Uma Thurman cantando e dançando "Girl, You´ll Be a woman soon" - aliás, as músicas que estão nos filmes desse diretor mereciam um post inteiro - ou o carro totalmente impregnado de sangue depois que Vincent estoura os miolos de uma testemunha do crime anterior. Aliás, gosto desse quadro porque o expectador não vê a cabeça do cara sendo partida, vê apenas o sangue e conta com sua imaginação para reconstruir o quadro, o que é muito mais interessante.
Por tudo isso e mais coisas das quais nem falei, vale a pena ver e rever esse filme.
Em meados de Abril desse ano, resolvi fazer um projeto de leitura junto a uma quinta série em que estava dando aulas e que se demonstrou uma turma bastante leitora. Solicitei um armário para a sala e para lá levei todos os meus exemplares infanto-juvenis. Os alunos também poderiam levar exemplares seus para trocarmos indicações de leitura. Foi dessa forma que recebi um exemplar purpurinado de Pincesas do mar.
A imagem acima não revela, mas trata-se de capa com relevo purpurinado, ilustração de primeiríssima categoria e enredo atraente. Devo dizer, não propriamente atraente a uma mulher de vinte e poucos anos, mas não posso afirmar que foi uma leitura sofrível. Pelo contrário, gostei muito. Claro que já sabia o que aconteceria na próxima página, mas isso é experiência de quem lê muito e presta atenção ao andamento das várias narrativas.
Confesso que o que me encantou foi saber, ao final da leitura, que se tratava de autor brasileiro, alguém que, como eu, nascera em uma cidade do interior de São Paulo. Pensei: puxa! As meninas da quinta série estão alucinando com algo que tem raiz nacional!!! (digo isso porque a sala toda já havia lido mais de um exemplar da turma e assistia aos desenhos em certo canal da tv fechada). Foi ótimo saber que essa geração está sendo moldada por uma leitura que até lembra os desenhos estadunidenses, mas que não é de lá, e isso vale muito, pois sempre haverá algo brasileirinho nessa produção.
Há ainda Combo Rangers e muita coisa desse moço a descobrir!!!
Parabéns Fábio Yabu, cujo site, blog e quetais acompanho desde então!
Poxa, pessoal! Ainda não deu pra perceber que a Intervenção Urbana é uma das formas mais contemporâneas de arte e que, portanto, merece reflexão.
A cadeia pode ficar reservada para ladrões e assassinos, nós agradecemos!
Leia, abaixo, nota publicada no site G1 sobre intervenção realizada em SP.
Alterada, placa na Marginal Pinheiros indica 'mula-sem-cabeça' na via
Intervenção urbana com adesivos altera mensagem nas placas. Quem fizer colagens pode receber penas alternativas e até ser preso.
Paulo Toledo Piza Especial para o G1, em São Paulo
Marcelo Mora Do G1, em São Paulo
A série de fotos mostra as placas alteradas na Marginal Pinheiros. Elas estão entre as pontes Cidade Jardim e Eusébio Matoso. (Fotos: Paulo Toledo Piza/G1)
Quem passa pela Marginal Pinheiros, em São Paulo, pode não ter reparado, mas as placas que avisam sobre a presença de animais silvestres foram alteradas. No sentido Interlagos da via, entre as pontes Eusébio Matoso e Cidade Jardim, adesivos transformaram um dos cervos das placas em uma mula-sem-cabeça, colocaram um cavaleiro sobre um dos animais e até incluíram um caçador no losango amarelo.
A intervenção urbana, como é conhecida a brincadeira, porém, pode acabar mal. Quem for flagrado fazendo colagens pode receber penas alternativas, como entrega de cestas básicas e trabalho comunitário, e até ser preso. A pena dependerá do tipo de colagem e do local onde foi realizada, conforme. A prática já é conhecida pelas autoridades em São Paulo: os adesivos - ou stickers (etiquetas adesivas, na tradução do inglês) - são comuns na região da Avenida Paulista e Rua da Consolação.
Quando uma amiga sugeriu que eu lesse A menina que roubava livros, no ano passado, eu fiquei meio na dúvida. Preconceituosa, pensei: "mas esse livro tá na lista dos mais vendidos, deve ser uma porcaria, tipo Paulo Coelho e tal". Ela insistiu tanto que eu resolvi lê-lo. Odiei as primeiras cem páginas. No entanto, forcei a barra e continuei a leitura. Quando me dei conta, estava totalmente envolvida com o discurso paradoxalmente sensível da Morte. Ela é de longe minha personagem favorita na história. A menina, que dá título ao livro, também é apaixonante e me fez viver tantas aventuras que, ao final do romance, debulhei-me em lágrimas. O fato é que essas lágrimas aconteceram na véspera do natal. Eu estava viajando a Botucatu, onde passaria a grande noite e, ao chegar, ninguém entendeu minha cara triste. Era uma tristeza de quem perdera uma amiga levada por outra, pois convivi com as duas, a Morte e Liesel, durante cerca de um mês. Intenso e profundo.
Num primeiro momento, achei que a delicadeza da narradora, que tanto me encantara, era, na verdade, do autor Markus ZusaK. Corri a uma livraria e comprei seu último lançamento, O dia do coringa. Infelizmente, a experiência não se repetiu. Neste último, o narrador era agressivo, violento. Deixei de ler o livro antes de chegar à metade. Talvez porque ainda estivesse sob o encantamento da delicadeza da morte.